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Bienal do Livro: debates sobre o acesso à leitura e à literatura no estande com títulos em múltiplos formatos acessíveis

Quais os desafios para ampliar o público leitor no Brasil? Como garantir o acesso das pessoas com deficiência ao livro e à leitura? O que se tem aprendido com a experiência de produzir livros em múltiplos formatos acessíveis para pessoas com diferentes características?

Esses foram alguns dos assuntos presentes nas rodas de conversa, oficinas e bate-papos com convidados e visitantes da 25ª. Bienal Internacional do Livro de São Paulo no estande de livros acessíveis e inclusivos, promovido pela Mais Diferenças, pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SEDPcD) e pelo Centro de Tecnologia e Inovação (CTI), entre os dias 3 e 12 de agosto de 2018 (Veja aqui a programação do estande durante o evento). De forma inédita na Bienal, o estande apresentou uma coleção de livros em múltiplos formatos acessíveis que puderam ser acessados pelos participantes já no próprio local. Os títulos infantis e infantojuvenis com recursos acessíveis estão disponíveis de forma gratuita no site: www.cti.org.br

O acesso ao livro e à leitura para todos – Gestores públicos, pesquisadores, escritores, editores, bibliotecários, profissionais da educação e estudantes com e sem deficiência compartilharam seus pontos de vista sobre os avanços e desafios das políticas de acesso aos livros e à produção literária para todas as pessoas no país. A escassa oferta de livros e de bibliotecas acessíveis a pessoas com diferentes tipos de deficiência e características foi abordada em rodas de conversa, que também destacaram o prazer da leitura e experiências de aproximação com o universo literário.

Na roda de conversa “O papel do livro e da leitura – Leitores com e sem deficiência”, Danilo Santos, que é surdo e trabalha como intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) na Mais Diferenças, relatou as dificuldades que enfrentava para compreender os textos em português. “Não tinha o hábito da leitura porque os livros eram extensos e eu não entendia tudo o que estava lá. Eu tinha interesse, mas encontrava dificuldade. Com o tempo e meu trabalho na produção dos livros acessíveis, conheci os livros de Leitura Fácil e as palavras ganharam sentido. Sinto que agora a leitura é mais fluida.”

A produção de livros em Leitura Fácil traz adequações em relação à linguagem, conteúdo e forma para ampliar a compreensão do leitor. Os processos de pesquisa e desenvolvimento dessas obras têm mostrado que esse recurso torna o livro acessível a diferentes grupos da população. “Quando trabalhamos com pessoas que não têm o hábito de leitura, percebemos que a produção com o recurso da Leitura Fácil faz uma mediação, um caminho para que a leitura seja possível. Não eram apenas as pessoas com deficiência intelectual que se beneficiavam, mas também a comunidade surda, as pessoas que cursam a Educação de Jovens e Adultos e as pessoas estrangeiras que estão aprendendo português como segunda língua”, explica Carla Mauch, coordenadora da Mais Diferenças. Quatro títulos da coleção Diversos – Livros Acessíveis e Inclusivos estão em Leitura Fácil (Peter Pan, A volta ao mundo em 80 dias, O menino no espelho e A bolsa amarela).

+ Assista à entrevista sobre a produção de livros em múltiplos formatos acessíveis transmitida durante a Bienal

Língua portuguesa x Língua de Sinais – Logo no primeiro dia de evento, recebemos a visita de um grupo de estudantes do curso de Letras Libras da Faculdade Assis Gurgacz, no Paraná. A viagem a São Paulo tinha como objetivo conhecer o evento e buscar obras que fomentassem seus estudos sobre educação. Quando questionados sobre qual tipo de leitura eles mais gostavam, foi unânime a resposta: gibis. Flaviana Machado, uma das estudantes, contou que buscava na Bienal livros que abordassem a cultura surda. Ela também relatou a dificuldade em encontrar materiais para seu trabalho de conclusão de curso, principalmente artigos científicos em formatos acessíveis.

Durante a roda de conversa “A importância do livro e da leitura – leitores com e sem deficiência”, Guacyara Labonia, coordenadora da Mais Diferenças, comentou que a combinação entre a interpretação em Libras e o texto presentes nos livros em múltiplos formatos acessíveis facilitam a leitura para as pessoas surdas ou com deficiência auditiva. “A estrutura da Língua Portuguesa é muito difícil, então ter as duas línguas juntas facilita o entendimento. Quando há um livro com Leitura Fácil, fica mais gostoso ainda, pois funciona como um trampolim para entrar nesse mundo e avançar para outras leituras”, refletiu Guacyara.

Nesta atividade também participou Mario Paulo Greggio, outro integrante da Mais Diferenças. Com Síndrome de Asperger, ele relatou que demorou a adquirir o hábito da leitura, mas foi após ter mais contato com os livros que se sentiu estimulado a concluir o ensino médio em um supletivo e ingressar na faculdade. “Com o trabalho na Mais Diferenças, comecei a ler o livro Peter Pan e fui anotando os parágrafos que eu não entendia e que achava que outros poderiam não entender. Então, o livro ficou em Leitura Fácil. Atualmente, estou lendo Robson Crusoé e comprei mais dois livros na Bienal”, contou. Mario participou da produção da versão audiovisual acessível em Leitura Fácil do livro Peter Pan.

+ Assista à transmissão ao vivo dessa roda de conversa com leitores

Durante a roda de conversa “A importância da leitura na primeira infância” discutiu-se a relação entre palavra e imagem. “Nós adultos já aprendemos a olhar a imagem e entender onde está a informação principal na narrativa visual. A criança não foi condicionada, ainda não aprendeu as características da narrativa visual e acaba prestando atenção em personagens que estão ali no cantinho e que o adulto não vê. É importante se colocar lado a lado e entrar em contato com a leitura da criança – este encontro é incrível”, diz Renata Nakano, do Clube de Leitura Quindim. Nesta roda, também estiveram presentes Fátima Bonifácio, da Divisão de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, Dianne Cristine Melo, da Fundação Itaú Social, e a equipe da Mais Diferenças.

Assista à transmissão ao vivo desse bate-papo no estande da Bienal

Homens e mulheres estão sentados e participam de um debate no estande da Bienal. Uma mulher à esquerda está com microfone em mãos. Ao fundo, é possível ver corredores e outros visitantes da Bienal.
Bibliotecas e livros nas prisões –
No debate “O Plano Nacional de Livro e Leitura – Avanços e desafios para a democratização do acesso para todos”, o rumo da conversa conectou a pauta da produção de livros acessíveis à defesa das bibliotecas e da promoção da leitura nas prisões. “No Brasil, a grande maioria das pessoas presas nunca abriu um livro. Então, não adianta ter bibliotecas nas prisões e apenas levar os livros. É preciso fazer rodas de leitura, apresentar essas obras”, afirmou Catia Lindemann, da Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais e da Federação Brasileira das Associações de Bibliotecários (Febab). Segundo ela, quatro estados brasileiros (Paraná, Maranhão, São Paulo e Rio Grande do Sul) adotam a lei de remição da pena por meio da leitura na qual é possível diminuir até quatro dias de pena para cada obra efetivamente lida, em um máximo de doze livros por anos, o que pode garantir quarenta e oito dias de remição em um ano.

“Se 75% dos presos não completaram o ensino fundamental, será que essa lei não se torna excludente? Não é só levar Machado de Assis às prisões e propor que a pessoa leia para que possa diminuir sua pena. Como o preso poderá provar que realmente leu e compreendeu? Além dos livros estarem nas prisões, é preciso pensar na acessibilidade dessas obras para que a lei seja inclusiva. Conheci os livros em múltiplos formatos acessíveis e penso que esta pauta tem que estar presente sempre que falarmos de política de fomento à leitura”, concluiu Catia.

Ouça a entrevista de Catia Lindemann e Renata Costa, representante do Ministério da Cultura, à Imprensa Jovem sobre as bibliotecas prisionais e como está a implementação do Plano Nacional de Livro e Leitura

Para José Castilho, ex-secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e da Leitura, os livros em formatos acessíveis também poder atender às necessidades da ampla camada da população que não têm o hábito da leitura e encontra alguma dificuldade para compreender os textos. “Se consideramos que apenas 15% da população brasileira é proficiente, temos que usar os instrumentos de acessibilidade para facilitar a leitura e a compreensão para uma grande parcela da sociedade. Por meio da leitura se dá a compreensão dos sentidos e a formação da capacidade crítica. Temos que usar toda a tecnologia disponível e os livros em formatos acessíveis para atingir essa ampla camada da população”, comentou.

Em julho, foi sancionada a Política Nacional de Leitura e Escrita (Lei 13.966/18), que prevê a universalização do direito de acesso ao livro, à leitura, escrita, literatura e às bibliotecas no país. A política estabelece entre seus objetivos o fortalecimento das bibliotecas públicas e de outros espaços de incentivo à leitura, a ampliação de acervos físicos e digitais e a garantia do acesso das pessoas com deficiência às obras literárias. “Com essa lei, vamos parar de fazer programas e projetos em favor da formação de leitores que dependem do convencimento ou da boa vontade de governantes. O direito à leitura hoje é parte da legislação brasileira e a partir de agora devemos tornar esse direito efetivo”, afirmou.

+ Assista à entrevista de José Castilho à Imprensa Jovem a respeito dessa política

Veja também:

Apresentação do livro audiovisual acessível “Uma nova amiga” (Editora SEDPcD ) e conversa com a autora Lia Crespo

 

Veja mais sobre a participação da Mais Diferenças na Bienal do Livro 2018